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Boletim N°7 |
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CITOPATOLOGIA: Tempos difíceis ou oportunidades para desenvolvimento? Os últimos anos têm testemunhado profundas mudanças no exercício profissional da citopatologia. Com mais de 50 anos de provas dadas e apesar de ser, demonstradamente um dos raros métodos efectivos de prevenção do cancro, a citologia cérvico-vaginal tem sido duramente questionada acerca da sua sensibilidade como método de rastreio. A necessidade de treino intensivo para sua aprendizagem, a baixa compensação financeira, os problemas médico-legais a ela associados e a carga de trabalho, são alguns argumentos que fazem com que os próprios citopatologistas tenham imensas reservas em relação à citologia cérvico-vaginal. A descoberta do HPV como agente etiológico do cancro do colo uterino trouxe implicações importantes para o rastreio. Actualmente, muitos investigadores defendem a ideia de que este rastreio deve ser feito através da pesquisa do HPV ao invés de se utilizar a citologia como primeira linha. Curiosamente esta linha de pensamento também tem sido defendida por citologistas e entidades ligadas à citopatologia. No último congresso da Academia Internacional de Citologia realizado em Santiago do Chile em Abril deste ano houve uma manhã inteira dedicada a este tema e na última edição do livro com a classificação de Bethesda podemos ler, na introdução, de que a citologia ficará provavelmente reservada aos casos HPV positivos. O que é que isto poderá representar a médio prazo para o exercício da citopatologia ? A primeira ideia é que perderemos uma fatia considerável da nossa rotina com consequências nefastas no que diz respeito aos postos de trabalho de citopatologistas e citotécnicos bem como no já combalido orçamento dos nossos laboratórios. Embora os patologistas que nunca viram a citologia com bons olhos possam pensar nas vantagens de não terem mais este tipo de rotina, creio que deveriam tomar também para si este alerta. O propalado fim da citologia traz ameaças reais ao exercício da patologia como um todo. Hoje a citologia cérvico-vaginal, amanhã a patologia tradicional. Entretanto, se as evidências científicas começam a apontar para este caminho, o que fazer? Em primeiro lugar, creio que é fundamental neste momento de tempos difíceis, aproveitar a oportunidade para conseguir o desenvolvimento da anatomia patológica nas suas diversas vertentes. Devemos deixar bem claro que qualquer modificação que passe a incorporar a biologia molecular como um método de diagnóstico, deverá ser de nossa responsabilidade. Não há profissional médico melhor treinado que o citopatologista/patologista para fazer a translação do laboratório para a clínica. Conforme as linhas de orientação existentes, os casos HPV positivos necessitarão de avaliação cito-morfológica. É claro que, esta avaliação, com número reduzido de casos face à rotina actual, terá de ser muito bem feita e com alto padrão de qualidade. Isto exigirá ainda maior especialização da nossa parte, utilização de tecnologias como a citologia líquida e uma exigência de um maior reconhecimento e consequente maior remuneração pelo nosso exercício profissional. É impensável praticar uma citopatologia moderna com os valores actualmente pagos pelo Sistema Nacional de Saúde. Se aproveitarmos esta oportunidade para reforçar a nossa importância como profissionais, a longo prazo teremos um menor número de casos para análise morfológica, a serem analisados com mais tempo, em melhores condições e com remuneração adequada. Outra área importante de actuação para o citopatologista é a chamada citologia de intervenção, que é praticada há muitos anos em países escandinavos. O papel do citopatologista junto dos pacientes tem aumentado, mesmo em países tradicionalmente conservadores nesta área como os Estados Unidos (leiam o editorial: Emerging Role of the Interventional Pathologist. Diagn Cytopathol 30: 295,2004). A literatura científica é rica em publicações que demonstram a melhor acuidade da citologia aspirativa quando o material é colhido pelo próprio citopatologista. Além destas vantagens, a prática da citologia de intervenção traz uma oportunidade única para darmos conhecimento a população do que é o trabalho do citopatologista/patologista, com consequências que podem ser muito benéficas para a nossa profissão. Além disso, o refinamento das técnicas diagnosticas em pequenas quantidades de material, a possibilidade de utilização de técnicas de biologia molecular como cDNA microarrays e CGH, entre outras, com a finalidade de estudar factores de prognóstico e de resposta terapêutica em material citológico, pode criar-nos uma oportunidade única no momento que as grandes biopsias cirúrgicas possam vir a tornar-se desnecessárias. A capacidade da citologia aspirativa em auxiliar decisões clínicas, e muitas vezes, evitar internamentos hospitalares desnecessários é uma boa razão para convencer os administradores hospitalares a estimularem a sua prática. Portanto, treinar e estimular nossos internos a praticar citologia de intervenção é um desafio e uma oportunidade para desenvolver a nossa especialidade. Diante destes desafios, sociedades científicas como a nossa têm a sua carga de responsabilidade aumentada, pois as exigências de melhor qualificação profissional trazem a necessidade de uma maior oferta de cursos e de treino aos profissionais da área. Ao aceitar o desafio de presidir a Sociedade Portuguesa de Citologia estava ciente de que teria de fazer um grande esforço para manter e se possível elevar ainda mais o patamar da nossa Sociedade, mantendo sua individualidade, aumentando os seus contactos com Sociedades de outros países e proporcionando aos sócios uma programação científica adequada às suas necessidades. Nestes primeiros meses de exercício posso já comunicar que teremos em Setembro a visita da Dra. Marluce Bibbo ao nosso país para realização de dois cursos de citologia cérvico-vaginal bem como para discutir o papel de novos marcadores como a p16 no rastreio do cancro do colo uterino. Também posso anunciar que a SPC foi recentemente convidada para ser co-patrocinadora do Congresso Europeu de Citologia de 2007 que terá lugar em Madrid. Estamos assim a iniciar um caminho de fortalecimento e internacionalização que são fundamentais numa Europa a 25 e em que a nossa união nos permitirá aproveitar a oportunidade de desenvolvimento criada paradoxalmente pelos tempos difíceis que hoje vivemos.
Fernando Schmitt |
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