|
Arquivos

Boletim N°1
Boletim N°2
Boletim N°3
Boletim N°4
Boletim N°5
|
FORMAÇÃO: UM DESAFIO PERMANENTE
Na escola da sinagoga, um famoso Rabino interrogava os circunstantes
sobre o momento preciso do início do dia, sobre qual a distinção
entre a aurora e a alva, sobre quando seria possível dizer, com
nitidez, que tinha terminado a noite e o dia tinha finalmente começado.
Depois de um tempo de perplexidade, começaram a surgir as respostas:
“Quando, saindo pelo caminho, já consigo perceber os limites
das formas: das casas, das árvores,…”. Que não,
respondia o Rabino. “Quando, saindo pelo caminho, – tentava
outro – consigo distinguir com segurança os diversos tipos
de árvores: uma figueira de uma laranjeira, uma nespereira de uma
cerejeira”. “Não, – respondeu o Rabino –
ainda não é essa a resposta certa. Querem continuar à
procura: quando é que é possível dizer, com nitidez,
que a noite chegou ao fim e que o dia começou?” A pergunta
era deveras intrigante. As respostas sucediam-se. Nenhuma a certa. Até
que um dos interlocutores se atreveu a interrogar o Rabino: “Diz-nos
tu, mestre, quando é que, afinal, podemos afirmar que a noite acabou
e começou o dia?” “Quando, – respondeu o Rabino
– saindo pelo caminho, ao ver um homem lhe digo: «Tu és
meu irmão!»; e, a seguir, ao ver uma mulher: «Tu és
minha irmã!». Foi nessa altura que acabou a noite e começou
o dia”.
Habituados a uma prática quotidiana de fazer diagnóstico
pela observação cuidada de imagens que aprendemos a interpretar,
sabemos, por experiência, que vivemos num mundo; e é na relação
com o mundo em que vivemos que nos compreendemos a nós próprios.
Mas não vivemos no mundo recebendo dele (do exterior) significados
e valores. Estamos em condições de reconhecer dados que,
progressivamente, podemos organizar de acordo com um sentido que não
depende deles, um sentido que vamos compreendendo a partir da nossa experiência.
Referimo-nos aos dados a partir de nós. Referimo-los à nossa
vida (um dado chamado ‘positivo’, quando comunicado, é
sempre um dado interpretado). É assim que vamos fazendo com que
o mundo se torne humano, e não apenas cosmos. O que requer um continuado
trabalho de formação. A responsabilidade pela formação
contínua, enquanto profissionais da Citologia, está na primeira
linha das exigências pessoais.
Mas a vida do ser humano não se vive unicamente na sua relação
com as coisas. Quando a relação não é de alguém-com-uma-coisa
mas de alguém-com-outro-alguém, uma relação
pessoa-a-pessoa, essa relação assume as características
específicas do encontro.
‘O outro’ não se apresenta como um objecto qualquer
pertencente ao meu mundo. O que
sucede, no meu pessoal encontro
com o outro, é que ele não se apresenta como realidade a
ser interpretada por mim; o seu existir diante de mim pertence ao seu
ser interpretante.
A vida pessoal é qualificada pela relação em que
a pessoa não diz só uma palavra de sentido, mas recebe também
uma resposta de sentido. É o viver no mundo sabendo-se chamado
a responder.
A experiência ética, que nasce da relação interpessoal,
é experiência de responsabilidade. É experiência
de que a minha liberdade, como exercício consciente de escolha
entre as diversas relações possíveis, é chamada
a tornar-se, pela presença do ‘outro’, responsabilidade.
Nessa relação, ou me torno responsável da vida do
outro e da sua liberdade, ou prefiro viver arbitrariamente ignorando-o,
sem lhe responder. Neste sentido, a experiência do encontro com
um ‘tu’ põe o problema da liberdade enquanto chamada
a tornar-se responsabilidade. O acontecimento do encontro
com o outro qualifica a minha liberdade no sentido da responsabilidade,
a partir da minha entrega ao ‘outro’, porque entregar-me num
acolhimento tendencialmente gratuito, ou não o fazer, constitui
a alternativa radical.
Espera-se que o itinerário que percorremos possa permitir o crescimento
da livre responsabilidade pessoal no cuidar do ‘outro’, no
mundo em que vivemos, sobretudo se ele é fraco, se é necessitado,
se precisa. Se está doente. Ainda que, para nós, esse encontro
seja mediado por lâminas com esfregaços ou com sedimentos.
Possa o nosso percurso permitir a aprendizagem de gestos de verdadeira
liberdade, não condicionados pela avaliação prévia
em termos de utilidade própria. Gestos de verdadeira liberdade
determinados unicamente pela livre e objectiva avaliação
do bem concretamente possível.
Isto coloca em primeiro plano um trabalho de formação que
diz respeito a todos e que tem, para cada um, a duração
da própria vida, como para a humanidade parece ter a duração
da história.
O trabalho de formação é, antes de mais, um trabalho
de auto-formação. Exactamente porque se trata de assumir
a responsabilidade no exercício da própria consciente liberdade.
O âmbito da relacionalidade concreta constitui possibilidade e limite
ao amadurecimento pessoal. É através das relações
em que nos encontramos e através da nossa colaboração
nas estruturas (relações estruturadas) que, de uma maneira
ou de outra, todos concorremos para a formação ética
dos outros e somos, por isso, corresponsáveis dessa formação.
Para um diagnóstico: saber dizer quando acaba a noite e começa
o dia.
J. M. Pereira de Almeida
|
|