Boletim N°6

FORMAÇÃO: um desafio permanente

Na escola da sinagoga, um famoso Rabino interrogava os circunstantes sobre o momento preciso do início do dia, sobre qual a distinção entre a aurora e a alva, sobre quando seria possível dizer, com nitidez, que tinha terminado a noite e o dia tinha finalmente começado. Depois de um tempo de perplexidade, começaram a surgir as respostas: “Quando, saindo pelo caminho, já consigo perceber os limites das formas: das casas, das árvores,…”. Que não, respondia o Rabino. “Quando, saindo pelo caminho, – tentava outro – consigo distinguir com segurança os diversos tipos de árvores: uma figueira de uma laranjeira, uma nespereira de uma cerejeira”. “Não, – respondeu o Rabino – ainda não é essa a resposta certa. Querem continuar à procura: quando é que é possível dizer, com nitidez, que a noite chegou ao fim e que o dia começou?” A pergunta era deveras intrigante. As respostas sucediam-se. Nenhuma a certa. Até que um dos interlocutores se atreveu a interrogar o Rabino: “Diz-nos tu, mestre, quando é que, afinal, podemos afirmar que a noite acabou e começou o dia?” “Quando, – respondeu o Rabino – saindo pelo caminho, ao ver um homem lhe digo: «Tu és meu irmão!»; e, a seguir, ao ver uma mulher: «Tu és minha irmã!». Foi nessa altura que acabou a noite e começou o dia”.

Habituados a uma prática quotidiana de fazer diagnóstico pela observação cuidada de imagens que aprendemos a interpretar, sabemos, por experiência, que vivemos num mundo; e é na relação com o mundo em que vivemos que nos compreendemos a nós próprios. Mas não vivemos no mundo recebendo dele (do exterior) significados e valores. Estamos em condições de reconhecer dados que, progressivamente, podemos organizar de acordo com um sentido que não depende deles, um sentido que vamos compreendendo a partir da nossa experiência. Referimo-nos aos dados a partir de nós. Referimo-los à nossa vida (um dado chamado ‘positivo’, quando comunicado, é sempre um dado interpretado). É assim que vamos fazendo com que o mundo se torne humano, e não apenas cosmos. O que requer um continuado trabalho de formação. A responsabilidade pela formação contínua, enquanto profissionais da Citologia, está na primeira linha das exigências pessoais.
Mas a vida do ser humano não se vive unicamente na sua relação com as coisas. Quando a relação não é de alguém-com-uma-coisa mas de alguém-com-outro-alguém, uma relação pessoa-a-pessoa, essa relação assume as características específicas do encontro. ‘O outro’ não se apresenta como um objecto qualquer pertencente ao meu mundo. O que sucede, no meu pessoal encontro com o outro, é que ele não se apresenta como realidade a ser interpretada por mim; o seu existir diante de mim pertence ao seu ser interpretante.
A vida pessoal é qualificada pela relação em que a pessoa não diz só uma palavra de sentido, mas recebe também uma resposta de sentido. É o viver no mundo sabendo-se chamado a responder.
A experiência ética, que nasce da relação interpessoal, é experiência de responsabilidade. É experiência de que a minha liberdade, como exercício consciente de escolha entre as diversas relações possíveis, é chamada a tornar-se, pela presença do ‘outro’, responsabilidade. Nessa relação, ou me torno responsável da vida do outro e da sua liberdade, ou prefiro viver arbitrariamente ignorando-o, sem lhe responder. Neste sentido, a experiência do encontro com um ‘tu’ põe o problema da liberdade enquanto chamada a tornar-se responsabilidade. O acontecimento do encontro com o outro qualifica a minha liberdade no sentido da responsabilidade, a partir da minha entrega ao ‘outro’, porque entregar-me num acolhimento tendencialmente gratuito, ou não o fazer, constitui a alternativa radical.
Espera-se que o itinerário que percorremos possa permitir o crescimento da livre responsabilidade pessoal no cuidar do ‘outro’, no mundo em que vivemos, sobretudo se ele é fraco, se é necessitado, se precisa. Se está doente. Ainda que, para nós, esse encontro seja mediado por lâminas com esfregaços ou com sedimentos. Possa o nosso percurso permitir a aprendizagem de gestos de verdadeira liberdade, não condicionados pela avaliação prévia em termos de utilidade própria. Gestos de verdadeira liberdade determinados unicamente pela livre e objectiva avaliação do bem concretamente possível.
Isto coloca em primeiro plano um trabalho de formação que diz respeito a todos e que tem, para cada um, a duração da própria vida, como para a humanidade parece ter a duração da história.
O trabalho de formação é, antes de mais, um trabalho de auto-formação. Exactamente porque se trata de assumir a responsabilidade no exercício da própria consciente liberdade.
O âmbito da relacionalidade concreta constitui possibilidade e limite ao amadurecimento pessoal. É através das relações em que nos encontramos e através da nossa colaboração nas estruturas (relações estruturadas) que, de uma maneira ou de outra, todos concorremos para a formação ética dos outros e somos, por isso, corresponsáveis dessa formação.
Para um diagnóstico: saber dizer quando acaba a noite e começa o dia.

J. M. Pereira de Almeida

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