Boletim N°5

Um novo médico para um novo século

Tive a sorte de estar presente na sessão inaugural do ano académico de 2002-2003 na Universidade da Beira Interior (realizada na Covilhã, só a 26 de Novembro). Sorte, porque pude escutar a magnífica lição do Prof. Julio Fermoso, neurologista, antigo Reitor da Universidade de Salamanca. O tema da sua oração de sapiência, tomei-o para título deste editorial.

Depois de abordar a temática «Medicina. Doença. Doente», citando nomeadamente, Nogueira da Costa – “A doença, conceito esquemático e abstracto, indispensável aliás para a linguagem médica, opõe-se em certos aspectos à doença do indivíduo, isto é, ao sofrimento e às modificações pessoais e ambientais inerentes. Assim, o indivíduo pode estar doente sem doença ou ter doença sem estar doente, o que se exprimiria melhor se tivéssemos dois vocábulos diferentes para doença objectiva e doença subjectiva. O médico tem sempre de considerar as duas” (in O Médico, 109, 1983, p.4) –, indicou alguns dos desafios de formação para o médico deste século XXI: «(…) humanista no seu modo de pensar, científico na sua maneira de raciocinar, artesão e eficaz na sua intervenção junto do doente; conhecedor das novas técnicas, preparado para as mais vertiginosas mudanças no progresso do saber e apto para o trabalho de equipa; cidadão do mundo e amante da sua cultura e da sua tradição, mas aberto às novas realidades interculturais; e, sobretudo, disposto a nunca dar por concluído o seu período de formação, de acordo com a máxima “aprender até morrer”».
Falando da investigação, referiu-se a ela como ‘escola de moralidade’ dado implicar atitudes de honestidade intelectual na procura da verdade, com um real amor pela objectividade, submetida a uma contínua verificação. A investigação é um agir humano que procura «ampliar o conhecimento do universo para benefício de todos. Os cidadãos, os grupos de influência social e os governos vão estando cada vez mais conscientes de que o desenvolvimento tecnológico, derivado da investigação, proporciona benefícios directos de carácter económico e social; e entre eles, melhorias na atenção médica e na saúde».

Uma última palavra para, nesta sede e em nome oficial, saudar, com um caloroso abraço, Manuel Sobrinho Simões. Com ele, gostaria de saudar também todos os que no IPATIMUP fazem ciência. Comoveram-me as suas palavras, que ouvi pela rádio, quando teve a notícia de receber este ano o Prémio Pessoa. Conhecendo-o como o conhecemos, bem sabemos como foram verdadeiras!…

Um novo médico para um novo século: obrigado, Manuel, por esta magnífica lição. A da tua vida.

J. M. Pereira de Almeida

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