Boletim N°4

Editorial

Este ano de 2002 iniciou-se, ainda e sempre, com as sombras e os ecos do Setembro passado. A conflitualidade e a complexidade do mundo em que vivemos parecem ser dados adquiridos. Mas não nos podemos resignar à violência como se de uma fatalidade se tratasse. Desde o fim da última Guerra Mundial que a guerra não tem tido fim.

Ora numas, ora noutras regiões da terra. Infelizmente, creio que nos fomos habituando… Uma das falsas soluções encontradas é tentar identificar o culpado. Com isto não pretendo dizer que não seja importante procurar compreender quem tem responsabilidades, pelo menos as mais relevantes. Uma coisa é esta reflexão exigente, outra a fácil saída de apontar com o dedo um culpado. Com esta operação – “se tudo isto sucede, a culpa é daquela pessoa, daquele grupo de pessoas” – afirma-se: não tenho nada a ver com o caso, nós não somos responsáveis por isso; se todos fossem como eu, o mundo andaria bem melhor; estas coisas, se todos fossem como nós, não aconteceriam. Esta lógica traz consigo, não imediatamente, mas com grande probabilidade e sucesso garantido, o isolamento do culpado de forma a torna-lo inócuo, se necessário (?) eliminando-o. Com isto, o problema está resolvido. Sabemos que não: com isto o problema complicou-se. E fica por resolver. Na base desta atitude existe a pretensão de nos declararmos justos, de sermos juizes, de estarmos na verdade, de possuirmos a verdade, de termos as mãos limpas. Não precisamos de ser perdoados porque somos justos por nós mesmos, pela nossa grandeza, merecemos ser reconhecidos como tal pelos outros. Obviamente por Deus também (aliás nem precisamos dele). Não temos necessidade de pedir perdão a ninguém.

A eficácia histórica do mal passa através do consenso à volta de um deixar andar as coisas como elas vão. Passa por nos retirarmos das nossas próprias responsabilidades. Nós. Não só os que exercem uma qualquer forma de poder. Ora isto decorre sem grande evidência, subrepticiamente. Não é habitual consentirmos que tudo continue como é (no trabalho – no laboratório -, lá em casa, nos grupos a que pertencemos) porque intervir tem demasiados custos e cansaços? É subtrairmo-nos à fadiga de um viver ético: pôr em jogo, sem descanso, com sinceridade, de olhos abertos, a própria liberdade responsável. Trata-se, normalmente, de dever fazer o pequeno bem aqui e agora concretamente possível para mim. Pequeno, possível e indispensável: é que não é só pequeno, não traz só a medida do possível; também comporta a dimensão do que é devido. Não me é pedido nada mais. Mas o que me é pedido, em consciência, de maneira absoluta, não condicionada, isso, eu não posso recusar. Não serão gestos heróicos, não, (pessoalmente espero que nunca na vida seja chamado a ter gestos heróicos!) mas sou chamado, absolutamente, ao pequeno bem, aqui e agora, para mim concretamente possível.

A eficácia histórica do mal não é devida só às grandes injustiças, às grandes decisões desonestas, de grande maldade evidente e desejada. Há como que um lento e perigoso cultivo de um terreno que é de mal, propício para o crescimento de árvores com frutos de maldade. Um “cultivar a terra” que é estruturar a nossa vida, aos diversos níveis, como lugar de fácil sementeira de mal.

Vivemos numa cultura de violência. Sabemos todos que para causar grandes danos, por vezes irreparáveis, não é preciso reunir os piores criminosos do mundo. É suficiente a mediocridade habitualmente aceite. É suficiente retirarmo-nos de, responsavelmente, realizarmos o pequeno bem que nos é concretamente possível, aqui e agora. Este agir será necessariamente pouco eficaz, nos critérios de eficácia que caracterizam a cultura e o tecido em que vivemos. Sobretudo se a motivação para a nossa opção pelo fraco e pelo pobre for só a de ele ser fraco, ser pobre. Não porque está do meu lado, não porque é da minha confissão religiosa, não porque é aquele com quem tenho ou quero ter relações comerciais. Tanto mais que ajudar o fraco não torna poderoso ninguém. Se ajudamos o pobre não nos tornamos ricos por isso. Mas se o resultado é este – visivelmente fraco – acredito que estas são as únicas situações de intervenção verdadeiramente eficaz. Porque só este agir é criador de humanidade. A sua real eficácia em termos de humanidade coincide com a sua real fragilidade.

Sem outro assunto
Com os meus cumprimentos

J. M. Pereira de Almeida

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