Boletim N°3

Editorial

Martin Buber, numa conferência no Congresso de Woodbrook em Bentveld 1, em Abril de 1947, contou a história que o Rabino Bunam contava habitualmente aos jovens que vinham ter com ele, pela primeira vez: a história do Rabino Eisik, filho do Rabino Jekel de Cracóvia.

Depois de anos e anos de dura miséria, Eisik recebeu, em sonhos, a ordem de ir a Praga para descobrir um tesouro que estava debaixo da ponte da entrada do palácio real. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik meteu-se a caminho e chegou a pé a Praga. Mas a ponte era vigiada dia e noite pelas sentinelas e ele não teve coragem de se pôr a escavar no lugar indicado.
Todavia voltava à ponte todas as manhãs, girando por lá até à noitinha.
Por fim, o capitão da guarda, que tinha notado a sua permanência, sempre a andar para um lado e para o outro, aproximou-se e perguntou-lhe se, por acaso, tinha perdido alguma coisa, ou se estava à espera de alguém. Eisik contou-lhe o sonho que o tinha trazido do seu país longínquo.
O capitão desatou a rir: “E tu, pobre homem, por acreditares em sonhos vieste a pé até aqui? Ah, ah, ah! Estás feito se te fias em sonhos! Então também eu havia de me pôr a caminho para obedecer a um sonho. Teria de ir a Cracóvia, a casa de um judeu, um tal Eisik, filho de Jekel, para descobrir um tesouro debaixo da estufa do seu jardim. Eisik, filho de Jekel…mas, brincamos, não?! Estou mesmo a ver-me a entrar e a estabecler a confusão em todas as casas de uma cidade na qual metade dos judeus se chamem Eisik e a outra metade Jekel!” E riu-se de novo.
Eisik saudou-o, regressou a casa, foi ao jardim e, debaixo da estufa, desenterrou o tesouro com que construiu a sinagoga chamada “Escola de Reb Eisik, filho de Reb Jekel”.
“Recorda bem esta história – acrescentava o Rabino Bunam – e capta bem a mensagem que é para ti: há uma coisa que não podes encontrar em parte nenhuma no mundo, e, no entanto, existe um lugar em que podes encontrá-la”.
Só podemos encontrar o grande tesouro no lugar em que nos encontramos nós mesmos.

Esta reflexão não se destina, obviamente, a sugerir que não se façam cursos e estágios, mais longe ou mais perto. Pelo contrário. Mas todos sabemos que a qualidade do que fazemos em Citologia depende sobretudo do que “descobrimos” com quem trabalhamos, lá mesmo, no Serviço em que nos encontramos.
Gostaria de recordar que a procura de uma arte de viver 2 não pode não interessar qualquer das práticas que constituem a nossa actividade profissional.

J. M. Pereira Almeida

1 M. BUBER, II cammino dell’uomo, Magnano 1998, 57-58.
2 M. DÜWELL, Aesthetic experience, medical practice, and moral judgement. Critical remarks on possibilities to understand a complex relationship. Medicine, Health Care and Philosophy 1999; 2 (2): 165.

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